》Modi na China marca virada em relações antes estremecidas – Expresso Noticias
Vamos ao assunto:
Dragão e elefante ensaiam um novo passo, sinalizando que cooperação pode superar rivalidades históricas em meio às incertezas globais
A visita do primeiro-ministro indiano, Narendra Modi, à China para a Cúpula da Organização de Cooperação de Xangai (SCO), após sete anos sem deslocamentos oficiais entre os dois líderes, marca um momento significativo no cenário geopolítico atual. Mais do que um gesto diplomático isolado, a reaproximação entre Nova Déli e Pequim reflete uma recalibração estratégica necessária, baseada em interesses comuns e no reconhecimento de que a cooperação supera o conflito.
Os recentes gestos de distensão – como a troca de doces entre soldados nas fronteiras do Himalaia, a retomada de rotas de peregrinação para a Região Autônoma de Xizang e a expectativa de retomada de voos diretos – não são meramente simbólicos. Eles representam um esforço consciente de ambos os países para superar um período de tensão, especialmente após o confronto no Vale de Galwan, em 2020. Esse movimento coincide com as celebrações dos 75 anos de relações diplomáticas entre as duas nações, um marco que convida à reflexão e à renovação.
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Razões estratégicas e econômicas
Analistas concordam que a motivação central por trás desse reaquecimento das relações é profundamente pragmática. Tanto a China quanto a Índia dedicaram recursos consideráveis para gerenciar as tensões fronteiriças. Hoje, prevalece a percepção de que é mais sensato direcionar esses esforços para prioridades económicas internas e para o reposicionamento estratégico num mundo em transformação.
Os números falam por si: em 2024, o comércio bilateral atingiu a cifra robusta de US$ 138,47 bilhões, com um crescimento de 1,7% em relação ao ano anterior. A retomada de voos diretos, a facilitação de vistos e a reabertura do comércio fronteiriço são decisões concretas que restauram a normalidade e apontam para um futuro de benefícios mútuos. Ambas as economias, fundamentais para o crescimento global, necessitam de estabilidade e de parcerias sólidas para navegar a lenta recuperação económica mundial.
Autonomia estratégica num mundo multipolar
O contexto geopolítico global atual, marcado pela guerra prolongada entre Rússia e Ucrânia, crises no Oriente Médio e uma política externa norte-americana cada vez mais transacional, pressiona as nações a reavaliarem suas alianças. A Índia, em particular, tem afirmado com clareza a sua política de autonomia estratégica. Como destacou o primeiro-ministro Modi, o país não fará concessões que ameacem os interesses dos seus cidadãos, seja em que fórum for.
Esta postura ressoa fortemente com a longa tradição chinesa de defesa da soberania e da não interferência em assuntos internos. A insistência de alguns setores da imprensa ocidental em enquadrar a reaproximação sino-indiana como uma “aliança anti-EUA” é, como apontam analistas, uma leitura reducionista. Trata-se, na verdade, de duas potências civilizacionais, fundadoras dos Cinco Princípios da Coexistência Pacífica, reafirmando seu direito de definir seus próprios caminhos e de cooperar com base no respeito mútuo e no interesse nacional.
Parceiros, vão rivais
A relação sino-indiana é carregada de história e de potencial. Como dois dos maiores motores de crescimento da Ásia, líderes do Sul Global e membros-chave de fóruns como a SCO, os BRICS e o G20, China e Índia compartilham a responsabilidade de promover uma ordem internacional mais democrática, multilateral e justa.
A visita de Modi à China é, portanto, uma oportunidade rara de transformar desconfianças históricas em colaboração pragmática. Os desafios, especialmente na complexa questão de fronteira, não desapareceram, mas a existência de canais de diálogo abertos e a conquista de consensos – como os recentes 10 pontos acordados por diplomatas e militares – demonstram uma maturidade diplomática notável.
No marco do 75º aniversário de seus laços diplomáticos, a “dança do dragão e do elefante” entra numa nova fase. Uma parceria fortalecida entre estas duas nações soberanas não só redefinirá o equilíbrio estratégico da Ásia, mas poderá ser um dos pilares mais importantes para a paz, a estabilidade e a prosperidade num mundo enfrentando incertezas sem precedentes. A soberania e a capacidade de diálogo de ambos os países mostram que o caminho para a solução de diferendos passa pelo respeito mútuo e pela visão de um futuro comum.
Com informações de Agências de Notícias*
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